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25/10/2019 | 'Teremos uma revolução no crédito para empresas a partir de 2020' - O Estado de S. Paulo

A queda na taxa de juros, o surgimento de novas tecnologias e inovações regulatórias devem provocar uma revolução no crédito das empresas a partir de 2020. Essa é a opinião do diretor do Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec-Fipe), Carlos Antonio Rocca, eleito o Economista do Ano de 2019 pela Ordem dos Economistas do Brasil. “A partir de 2020, vamos ver uma revolução na forma como as empresas se financiam”, diz ele, destacando a implementação da duplicata eletrônica, do cadastro positivo e o avanço do mercado de capitais. Na avaliação de Rocca, com a Selic no menor patamar da história e a nova política do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a decolagem do mercado de capitais vai continuar em alta. Veja a seguir a entrevista concedida ao Estado: 

Como o sr. está vendo o atual momento da economia brasileira com os juros no menor patamar da história?

Essa queda dos juros está muito atrelada também ao mercado internacional. Há hoje US$ 17 trilhões aplicados em papéis soberanos com juros negativos, no mundo todo. Por aqui, a inflação está controlada e a aprovação da reforma da Previdência ajudou nas expectativas de que o País de algum modo vai caminhar para um ajuste fiscal necessário. Isso dá condição para manter as taxas de juros em patamar baixo. Há uma queda significativa do risco país – o prêmio que o mercado internacional exige para colocar dinheiro em papéis soberanos brasileiros. Tudo isso aliado a expectativa de o País ainda ter uma elevada capacidade ociosa, pequeno crescimento do PIB e elevado desemprego dão condições para reduzir a taxa.

Por que os juros baixos não chegam ao consumidor pessoa física?

A gente tem acompanhado os trabalhos do Banco Central, que reformulou toda a metodologia de cálculo e criou o índice de custo de crédito. Nesse trabalho, o principal componente é a inadimplência, que responde por mais de 30% do spread (diferença entre o custo de captação e o que é emprestado para o consumidor). Em seguida vem os custos administrativos e depois impostos e compulsórios. Com isso, não há possibilidade de a taxa de empréstimo dos bancos cair proporcionalmente à taxa Selic. A Selic é um dos componentes, que é o custo de captação. Mas o que acho importante é enxergar o movimento para onde estamos caminhando. 

E para onde estamos caminhando?

Temos visto a criação de vários bancos digitais e fintechs no País. Tem também uma série de inovações regulatórias que vão ter impacto forte nos juros para o consumidor e para as empresas. A duplicata eletrônica, por exemplo, vai ter reflexos no custo de financiamento para pequenas e médias empresas, que não têm acesso ao mercado de capitais. A duplicata em papel não tinha nenhuma credibilidade. Valia muito pouco como garantia, pois havia o risco das duplicatas frias e de as empresas usarem o papel em mais de uma instituição como garantia de diferentes operações de financiamentos. Tinha pouca credibilidade e não ajudava em nada do ponto de vista de redução do risco de crédito. Com a duplicata eletrônica, há empresas que vão monitorar desde a emissão da nota fiscal até a entrega do papel como garantia no banco ou securitização de recebíveis. Isso significa uma redução muito forte do risco de crédito das operações que envolvem as duplicatas.

E qual o papel do cadastro positivo?

Com o novo cadastro positivo, todos os bancos médios, fintechs e bancos digitais vão ter acesso ao histórico do cliente. Hoje só os grandes bancos têm seus cadastros. Agora todas as instituições vão passar a ter acesso as informações do histórico dos consumidores. Além disso, há uma migração cada vez maior para as plataformas digitais, o que reduz fortemente os custos administrativos. Essas inovações regulatórias vão permitir uma redução forte do risco de crédito e o uso de modelos mais sofisticados de avaliação do risco. Os bons pagadores vão ter um benefício muito grande. Haverá uma redução da taxa de juros para o consumidor por causa do aumento da concorrência. Mas não estamos vendo isso hoje. Isso vai ocorrer especialmente a partir de 2020. Está tudo aprovado em lei, mas precisa de detalhes de regulamentação. Então, a partir de 2020, vamos ver uma revolução no modo como as empresas se financiam. 

Os consumidores pessoa física também serão beneficiados? Ou apenas as empresas? 

Os dois serão beneficiados. Veremos cada vez mais bancos digitais e fintechs entrando no mercado e aumentando a concorrência. E isso se traduz em juros mais baixos.

Podemos pensar em ter taxas de cheque especial ou cartão de crédito mais civilizadas?

Cheque especial e cartão de crédito, nas taxas de hoje, acabam sendo procedimentos totalmente em desfavor ao consumidor. Mas, na medida em que o consumidor passa a ter ampliação da oferta de crédito com taxas mais baixas, ele não precisará mais do cheque especial. O que vai ocorrer é um aumento muito forte de concorrência no mercado beneficiando pessoas físicas e empresas. 

O mercado de capitais vem crescendo bastante nos últimos anos. Esse movimento vai continuar?

O mercado de capitais no Brasil está apenas no começo. Há espaço muito grande para crescer. Hoje há dois segmentos: um de mercado de dívida corporativa,em que as empresas emitem títulos como debêntures, notas promissórias, certificados de recebíveis, etc....E você tem a emissão de ações. A participação do mercado de capitais na carteira consolidada de ativos financeiros da economia brasileira é muito pequena. Pelos dados do Cemec, o total de todos os títulos de dívidas do mercado de capitais representa 7% da carteira.  

Esse crescimento está associado à mudança na política do BNDES?

Entre 2010 e 2016, o BNDES competiu com o mercado de capitais. O banco despejou centenas de bilhões de reais para grandes empresas a taxas de juros subsidiadas exatamente para aquelas empresas que tinham condições de entrar no mercado de capitais por sua escala e por terem balanços auditados. Com a mudança na política do BNDES, com o fim das taxas subsidiadas, houve uma quebra de desembolso do banco, que caiu de R$ 190 bilhões, em 2013, para algo em torno de R$ 60 bilhões. Essa diferença foi integralmente compensada pelo aumento do volume de dívida corporativa, que saiu de números muito baixos para mais de R$ 200 bilhões. Hoje as taxas médias das debêntures estão muito próximas do BNDES. Não tenho dúvida de que mantendo esse cenário, com taxas baixas e nova postura do banco de desenvolvimento, a decolagem do mercado de capitais vai continuar.

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