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23/10/2019 | O drama de muitos jovens (Editorial) - O Estado de S. Paulo

É cada vez mais frequente deparar-se em São Paulo com ciclistas levando uma caixa térmica de 45 litros nas costas. São pessoas realizando o serviço de entrega para algum aplicativo, como Rappi, iFood e UberEats. Os números referentes a essa atividade impressionam. Só na capital paulista há cerca de 30 mil cadastros de entregadores de bicicleta nessas empresas de entrega.

Essa nova cena urbana revela não apenas demanda por comida em casa. Ou que a tecnologia proporciona facilidades no dia a dia do paulistano. Ela é também um sinal, entre outros, de um mercado de trabalho frágil, especialmente no que se refere aos jovens. Entre os entregadores de bicicleta, 75% têm entre 18 e 27 anos. “Uma crise tão prolongada deixa cicatrizes, e o desemprego entre os jovens talvez seja a maior delas”, disse Eduardo Zylberstajn, do departamento de pesquisa e inovação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

Os dados do desemprego entre os jovens são preocupantes. Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua relativa ao segundo trimestre, a faixa etária de 18 a 27 anos é a que mais sofre com a falta de trabalho. O desemprego atinge 5,15 milhões de brasileiros dessa idade, o que representa uma taxa de desemprego de 22,5%. Esse número está 10,5 pontos porcentuais acima da taxa de desemprego verificada entre a população de todas as idades. Há cinco anos tal diferença era de 6 pontos porcentuais.

Segundo a Pnad, 17,7 milhões de pessoas entre 18 e 27 anos estão ocupadas, das quais 7,3 milhões vivem de bicos ou sem carteira assinada. Entre os trabalhadores informais, estão os entregadores de bicicleta. A Associação Brasileira do Setor de Bicicletas realizou, em parceria com o Instituto Multiplicidade e o Laboratório de Mobilidade Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um estudo sobre o perfil desse trabalho. Com uma dedicação média de 12 horas por dia, os entregadores obtêm uma renda média líquida de R$ 936 por mês.

Mais da metade dos ciclistas de aplicativo (60%) trabalha todos os dias da semana, sem folgas. “A gente não descansa”, disse Samuel Marques, que mora no Capão Redondo e trabalha com entregas de bicicleta na Vila Olímpia. “Não me lembro da minha última folga desde que comecei a trabalhar com isso, um ano atrás. Todas as vezes que sento para assistir à televisão em casa, penso que poderia estar pedalando e fazendo algum dinheiro”, disse ao Estado.

Além de refletir as agruras do mercado de trabalho, essa dedicação estafante a um trabalho informal é também sintoma de uma formação profissional deficitária. Por falta de educação formal minimamente satisfatória, parte considerável da população jovem não tem condições de realizar trabalhos mais qualificados, que possam proporcionar maior renda e melhor futuro. Talvez aí esteja o maior drama: a falta de perspectiva profissional para tantos jovens.

Diante de um país que dedica volumosos recursos à educação, é frustrante ver as novas gerações tendo que subsistir à base de pedaladas. É a troca de força física por algum dinheiro. Em vez de avançar, a impressão é de um profundo retrocesso social, com jovens vivendo de forma precária e vulnerável. Apesar de toda a tecnologia envolvida na sua atividade, não estão no século 21. Suas condições de vida estão com dois a três séculos de atraso.

Seria enganoso responsabilizar os aplicativos pela precariedade da situação de tantos jovens. “Sempre haverá um tipo de trabalho para quem está nas franjas da economia. Esse seria o caso do emprego para os trabalhadores ciclistas”, disse Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Há um problema social gravíssimo quando o País não consegue formar adequadamente as novas gerações, impondo-lhes um início de vida adulta nos limites da sobrevivência. É urgente adotar medidas para aquecer o mercado de trabalho. É urgentíssimo dar um novo horizonte educacional e profissional a todos os jovens.

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