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14/10/2019 | Só a meritocracia não basta para medir o sucesso ou o fracasso (Breno Paquelet) - O Estado de S. Paulo

Encontramos frequentemente nas redes sociais diversas frases motivacionais e histórias espetaculares de superação, de pessoas que começaram do zero ou perderam tudo e conseguiram dar a volta por cima, obtendo sucesso estrondoso. A intenção por trás da divulgação desse conteúdo é nobre e deveria servir como estímulo para que as pessoas que passam por dificuldades possam se inspirar e alcançar sucesso por méritos próprios.

O efeito colateral, no entanto, é que muitos têm entendido a meritocracia de forma equivocada, que em vez de fator motivacional vira parâmetro de julgamento, através de uma lógica enviesada: “Aquela pessoa não tinha nada, se esforçou e conseguiu vencer. Se você não conseguiu, é porque não se esforçou o suficiente”. De tão repetida, essa lógica torna-se verdade e vira atalho para julgamentos automáticos e frequentes, que acabam ignorando questões muito mais profundas.

É fato que pessoas que nascem em situações adversas possuem, estatisticamente, menor probabilidade de sucesso do que as que têm acesso a saúde, educação, rede de contatos, estabilidade familiar e financeira. Isso não tira os méritos de quem foi “bem nascido” e obteve sucesso, nem deve ser critério para desvalorização de quem nasceu com pouco e não conseguiu evoluir.

Dedicar-se de corpo e alma para obter sucesso profissional é o mínimo que alguém pode fazer para alcançar uma vida melhor, mas na grande maioria dos casos isso não é o suficiente.

Quando as estatísticas jogam completamente contra, o esforço extraordinário tende a promover apenas resultados moderados na grande maioria dos casos e sucesso estrondoso em pouquíssimos outros. Mas a visibilidade que as histórias obtém nas redes sociais faz parecer que sejam mais frequentes do que os milhões de casos invisíveis de insucesso do dia a dia.

Ao analisar sua própria história ou a dos outros, a métrica de sucesso deve contemplar de onde a pessoa partiu, os eventos que aconteceram em sua vida (sorte, azar, acaso, oportunidades ou qualquer nome que queiram dar a isso), sua reação a eles e as escolhas que fez ao longo do caminho.

Analisar a meritocracia sem considerar esses pontos torna simplista uma questão complexa. Ao adicionar contexto, valorizamos muito mais histórias “comuns” como de sucesso e criamos empatia com outras de aparente “insucesso”.

* Breno Paquelet é especialista em negociações estratégicas pela Harvard Business School, com educação executiva em Estratégia Empresarial no Massachusetts Institute of Technology (MIT). É professor do MBA em Gestão Empreendedora da Universidade Federal Fluminense (UFF), professor convidado da Casa do Saber/RJ e autor do livro Pare de Ganhar Mal (ed. Sextante).

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