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30/09/2019 | Investimento chinês no país agora mira tecnologia e serviços - O Globo

Para ser reconhecida como potência da inovação tecnológica e não “copiadora”, China redireciona recursos no Brasil.

Oinvestimento chinês, que até alguns anos atrás estava focado em grandes projetos de energia, petróleo e agronegócios, está chegando ao cotidiano dos brasileiros. Os asiáticos, que investiram quase US$ 60 bilhões no país nos últimos dez anos — segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) —estão atuando em setores como transporte por aplicativo, bancos digitais, lojas de alta tecnologia e até celulares usados. Isso contribui para uma mudança de imagem que a China busca no mundo. De “copiador de produtos”, o gigante asiático quer ser reconhecido como uma potência em inovação tecnológica.

— A China já é uma potência tecnológica, exportando inovação. Por trás da guerra comercial com os EUA, há a disputa tecnológica — diz Tulio Cariello, coordenador de Análise e Pesquisa do CEBC. Essa busca por se mostrar como país inovador já se reflete no Brasil. Depois dos projetos bilionários, o investimento hoje é menor, mas está mais disseminado pela economia e gera efeitos no mercado de trabalho. Segundo o pesquisador mexicano Enrique Dussel Peters, professor da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) e coordenador-geral da Rede Acadêmica da América Latina e Caribe sobre China (Red ALC-China), o Brasil é o país latino que mais se beneficia da relação com a China. — O comércio entre os dois países e o investimento chinês no Brasil sustentam, segundo nossos estudos, 1,6 milhão de empregos no país —afirmou. Uma das principais estratégias para o projeto de mudança de imagem da China está baseada no fortalecimento de marcas de tecnologia. Um exemplo disso foi a inauguração da primeira loja da Xiaomi no Brasil, em um shopping paulistano, em junho. A loja teve fila na porta e senha para visitação por um mês. Com 200 produtos —com preços que vão de R$ 25 a R$ 9mil, passando por canetas a robôs de limpeza— a marca prevê uma segunda loja no país ainda neste ano e uma “agressiva expansão” em 2020. Para o diretor Luciano Barbosa, mais que quebrar o preconceito com produtos chineses, a Xiaomi pode ajudar a intensificar a relação entre os dois países: —Estamos vendo a demanda dos brasileiros. Podemos criar produtos especiais para este mercado.

PARCERIAS

Parte destas empresas chinesas começam a investir em tecnologia conjunta no Brasil. Esse é o caso da BYD, gigante que produz painéis solares, carros, caminhões e ônibus elétricos e acabou de vencer a licitação para um monotrilho em Salvador. —Estamos fazendo parceria com empresas nacionais, como a WEG, de motores, e a CSN, para o desenvolvimento de materiais mais resistentes — disse Adalberto Maluf diretor da subsidiária BYD Brasil. Essa ligação com inovação e tecnologia é confirmada no mundo acadêmico. O Instituto Confúcio, do governo chinês, já dá aulas de mandarim para dez mil universitários brasileiros. —Os universitários veem a China como uma grande opção e estão cada vez mais procurando o ensino do mandarim —afirmou o professor Luís Antonio Paulino, coordenador do Instituto Confúcio na Unesp . Vinte meses depois da aquisição da 99, plataforma brasileira de transporte por aplicativos, por US$ 600 milhões, a Didi Chuxing, chamada de Uber chinês, informa que o faturamento cresceu seis vezes e o número de motoristas triplicou, chegando a 600 mil no país. Hoje, a empresa atende 18 milhões de usuários. Nas próximas semanas, a empresa está trazendo um novo executivo Mi Yang, para expandir a operação no país, com foco em segurança do passageiro e um novo centro de atendimento, que funciona 24 horas.

A empresa chinesa de venda de itens eletrônicos de segunda mão, Aihuishou, investiu US$ 3 milhões na brasileira Trocafone, que vende celulares de segunda mão reformados. O capital chinês permitiu que a Trocafone contratasse mais 40 desenvolvedores para melhorar a plataforma, chegando a 450 funcionários. — Temos um projeto conjunto para uma empresa global de venda de celulares usados e a Trocafone será o hub para a América Latina —conta o diretor-executivo da empresa, Guille Freire.

NOVAS OPORTUNIDADES

Claudio Frischtak, presidente da consultoria Inter.B., vê novas oportunidades de investimento chinês nas concessões de estradas federais e estaduais, e no setor de energia renovável. O presidente da State Grid Brazil, Chang Zhongjiao, disse ao GLOBO que o interesse da empresa pelo país se mantém. De todo o investimento no exterior feito pela State Grid, gigante chinesa do setor de energia, 50% vieram para o Brasil, o que representa R$ 27 bilhões, nesses últimos nove anos, explicou Chang. —Temos interesse no longo prazo no Brasil. Há muitas necessidades no setor de energia a serem supridas, o sistema regulatório é muito transparente e está em pleno funcionamento e o Brasil é muito receptivo a tecnologias inovadoras, como a que trouxemos para o linhão de Belo Monte —disse Chang. Para os chineses, entre os grandes mercados consumidores do mundo, o Brasil apresenta estabilidade jurídica, o que abre uma grande oportunidade de investimento, embora ainda exista certa preocupação com o sistema tributário e com as responsabilidades trabalhistas, avalia o advogado Thiago Flores, do escritório Dias Carneiro.

 

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