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04/07/2019 | Competência política é diferente de politicagem (Betania Tanure) - Valor Econômico

A palavra "política" passou a ter uma conotação negativa no Brasil. No ambiente empresarial, teme-se que qualquer relação com esse campo manche reputações. Fazer política, assim como fazer lobby, passou a ser associado a práticas ilícitas. Nas referências às tratativas da iniciativa privada com as esferas públicas, dá-se preferência ao termo "advocacy", cujo sentido original, ainda não usurpado, dá um tom positivo à relação entre o público e o privado. Já para sociedades e indivíduos maduros não existiria "advocacy" na ausência da arte da política. Da boa política. Essa indevida contaminação do significado de "política" foi favorecida pelos casos e descasos com a lei. Fazer política virou sinônimo de contornar a lei, de ganhar uma concorrência sem ter as melhores condições, os melhores preços, de burlar o sistema meritocrático para promover quem tem boas relações com o poder, desconsiderando-se competências e resultados, e ser escolhido ou contratado sem passar pelos trâmites recomendáveis. 

Todas essas práticas estão ainda hoje, em alguma medida, presentes nas relações e se referem à arte da má política, ou seja, à politicagem. Não podemos confundi-la com a boa política, que se distingue pelo exercício ético e legítimo da competência de influenciar o comportamento e as ações de outras pessoas. Ético, legítimo e necessário. Chamo dirigentes com essa visão de estadistas. São referência não somente para os seus liderados mas para outras empresas, para o seu setor, para o país. É bem verdade que são raros os dirigentes estadistas no Brasil: 5%, segundo nossas pesquisas. E por que são tão poucos? Considero que a grande maioria dos executivos se perde em armadilhas que os impedem de exercer a competência de estadista e, assim, fazer a boa política. Indo além do foco em resultados de curto prazo, vou aqui analisar três outras armadilhas: o ego inflado, a dificuldade de formar alianças do bem e a resistência em discordar de quem está no poder. 

O ego inflado é o primeiro ponto a cuidar. É preciso ter vigilância para não se deixar seduzir pela entourage. Se você se vê como "todo poderoso", muito provavelmente tem, em alguns momentos, a sensação de que a capacidade de decidir é inteiramente sua. Você até pode centralizar as decisões, mas se não influenciar verdadeiramente os outros a implementação ficará, no mínimo, truncada. A segunda armadilha diz respeito à incapacidade de ouvir e formar alianças verdadeiras e do bem.

É comum que, ao ouvir, as pessoas estejam mais preocupadas em elaborar o argumento certo para, na sequência, rebater as opiniões do "adversário" e ganhar a discussão. Esse comportamento vai contra o exercício da boa política? À medida que você se dispõe a compreender o outro, aumenta significativamente a chance de influenciá-lo e de ser influenciado por ele. Pode-se, por exemplo, construir uma terceira posição, que represente a melhor alternativa para todos. A terceira ameaça à competência de estadista é a crença de que não se deve discordar de quem está no poder. Muitos acreditam que expor ao chefe qualquer divergência leva a discussões, prejudicando as boas relações. A tendência natural é confundir as diferenças profissionais com o desafeto. Essa situação é agravada pelo medo de retaliação objetiva ou emocional.

Precisamos recuperar o verdadeiro significado de "política", palavra cuja origem remete a cidade, à polis grega. Fazer política é participar da cidade, é ser cidadão. A boa política deve ser praticada, ensinada e aprendida desde a infância: em casa, na família, na escola, na vizinhança. Sem a consciência de que o bem da comunidade é o bem de cada um, não poderemos reconhecer o valor da boa política. É um caminho para propiciar a formação de mais estadistas. E são eles, os dirigentes estadistas de empresas estadistas, que atraem os talentos da nova geração. Essas empresas são, cada vez mais, admiradas pelos consumidores, pelos clientes e pela sociedade, pois, além de serem lucrativas no curto prazo, contribuem para a construção de um país melhor para todos.

 

Betania Tanure é doutora, professora e consultora da BTA

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