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07/05/2019 | Desindustrialização é um problema? (Paulo César Morceiro) - Valor Econômico

A desindustrialização é uma mudança estrutural em que a indústria de transformação perde bastante peso no Produto Interno Bruto (PIB) para o setor de serviços. Ela gera um problema de três dimensões. Primeiro, pelo desenvolvimento tecnológico, quando os setores de alta e média-alta tecnologia reduzem peso no PIB antes do país superar a armadilha da renda média - isto é, antes de atingir renda per capita vinte mil dólares internacionais. Esses setores tecnológicos são relevantes pois desenvolvem e produzem produtos inovadores, empregam trabalhadores qualificados e têm elevado dinamismo no mercado interno e comércio internacional.

Segundo, pela absorção de mão de obra qualificada, quando os setores de serviços - que aumentam o peso no PIB em detrimento da indústria - são aqueles intensivos em mão de obra pouco qualificada, que possuem produtividade e sofisticação produtiva baixas. Terceiro, em termos do crescimento econômico, quando ocorrem as duas últimas situações ao mesmo tempo. A desindustrialização brasileira se encaixa neste último caso. A desindustrialização brasileira atingiu o núcleo industrial de maior intensidade tecnológica a partir de 1980. Entre 1980 e 2016, os setores de maior intensidade tecnológica perderam 40% de peso no PIB (ver gráfico).

Assim como é de conhecimento comum que os setores de serviços que expandiram peso no PIB e na força de trabalho são majoritariamente aqueles de baixos salários e qualificação da força de trabalho. Essa é uma combinação perversa que aprisiona o país numa trajetória de baixo crescimento econômico, baixo dinamismo tecnológico e poucas oportunidades para qualificar a força de trabalho. Portanto, fica evidente que a desindustrialização do Brasil é um problema. Mas vamos esmiuçar um pouco mais a resposta ao título deste artigo. O núcleo dinâmico em termos de tecnologia e mão de obra qualificada da indústria de transformação brasileira está atrofiado e/ou com pouca capacidade de irradiar dinamismo para o restante da economia.

Alguns setores de maior intensidade tecnológica ou seguem uma trajetória de desindustrialização bem definida (química, máquinas e equipamentos) ou possuem tecido industrial muito rarefeito (informática, eletrônicos e ópticos, outros equipamentos de transporte, farmacêutica e parcela da química) e/ou não seguem uma trajetória de industrialização robusta que é esperada para um país de renda per capita intermediária como o Brasil (informática, eletrônicos e ópticos, material elétrico, farmacêutica, automobilística e outros equipamentos de transporte) - conforme já abordado nas reportagens de Ana Conceição (Valor, 04/02/2019) e Marta Watanabe (Valor, 06/03/2019).

Assim, a desindustrialização torna-se um problema de maior monta quando atinge o núcleo setorial de elevado potencial de dinamismo tecnológico e de absorção de mão de obra qualificada da economia. Por isso, não é surpresa que a taxa de crescimento do PIB nas últimas décadas foi baixa e irregular. A literatura de industrialização teve preocupação em diferenciar e qualificar os estágios na trajetória de industrialização do país. De forma geral, criou-se categorias para expressar que alguns setores são mais fáceis de implantar do que outros em termos de tecnologia, de montante necessário de investimento fixo, capacidade produtiva mínima, qualificação da mão de obra e/ou barreiras à entrada, entre outros requisitos.

Algumas dessas categorias dividem os setores produtivos em bens de consumo não-duráveis, bens intermediários, bens de consumo duráveis, e bens de capital ou simplesmente entre indústrias leves e pesadas. Sanjaya Lall, importante economista do desenvolvimento, dividiu os setores industriais em dois grupos: 1- indústrias de tecnologias fáceis, que atualmente compreendem os setores de baixa e média-baixa tecnologia, os quais têm a dotação de recursos naturais e/ou baixos salários como impulsionadores da competitividade; e 2- indústrias de tecnologias difíceis, que correspondem aos setores de alta e média-alta tecnologia e possuem mão de obra qualificada, aprendizado complexo e demandam atividade tecnológica.

A partir de sua classificação, é notório que, em termos de qualidade, também houve retrocesso na industrialização brasileira, pois os setores portadores de tecnologias difíceis estão atrofiados e/ou com pouca capacidade de irradiar dinamismo para o restante da economia, não conseguindo atuar para diminuir a intensidade da desindustrialização em curso no país ou para acelerar a taxa de crescimento do Brasil. O setor de informática, eletrônicos e ópticos está muito atrofiado e possui pouca capacidade de irradiar dinamismo para o restante da economia. O tecido industrial deste setor é bastante esburacado na medida em que os principais insumos e componentes tecnológicos são importados, logo, a inovação tecnológica vem de fora e os processos produtivos assemelham-se ao das maquilas mexicanas.

Ademais, este setor tem uma participação muito pequena na economia - apenas 0,5% do PIB do Brasil - que se manteve no mesmo patamar nas últimas décadas. Vale mencionar que o setor em questão nucleou a Terceira Revolução Industrial e tem papel destacado na atual Quarta Revolução, denominada Indústria 4.0. Nos países avançados este setor é responsável por fabricar bens de alta tecnologia com elevados investimentos em P&D enquanto na China foi utilizado como uma escada na industrialização em curso. Em geral, esse setor cresceu muito nas últimas décadas e ganhou muita relevância na indústria e comércio internacional. Portanto, o Brasil teve e continua tendo um desempenho pífio em um setor de tamanha importância.

Certamente, a elevada dependência tecnológica de componentes estrangeiros intensivos em Pesquisa & Desenvolvimento limitou o potencial do país em explorar tecnologias capazes de alavancar o sistema nacional de ciência e tecnologia e de estimular o crescimento dos demais setores. E apesar de ser mais grave no setor de informática, eletrônicos e ópticos também atinge outros setores de alta intensidade tecnológica em menor magnitude.

Paulo César Morceiro é doutor em Economia pela FEA-USP, pesquisador da Fipe e Nereus-USP e editor do blog Valor Adicionado. 

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