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29/04/2019 | Autor atribui sucesso das fábricas à vigilância sobre os trabalhadores - Folha de S. Paulo

No momento em que as sociedades mais desenvolvidas colocam um pé na era pós-industrial, Joshua B. Freeman dá alguns passos atrás e narra, em “Mastodontes”, a história das grandes fábricas que, impondo disciplina férrea aos trabalhadores e cobrindo cidades com a fumaça preta das chaminés, abriram caminho para o progresso e a modernidade.

É assim, com o olhar crítico e sem um pingo de nostalgia, que o professor americano do Queens College e do Graduate Center da City University, de Nova York, aborda o universo fabril, dos tempos da Revolução Industrial do século 18 aos dias de hoje.

Freeman se debruça sobre o nascimento, em 1721, em Derby, na Inglaterra, daquilo que ele chama de “primeiro exemplo de sucesso de uma fábrica”, a Derby Silk Mill. O autor não romantiza o feito. “As primeiras fábricas não foram construídas a partir de visões sociais grandiosas, mas para aproveitar oportunidades comerciais ordinárias”, escreve. No caso, tratava-se de lucrar com a escassez de um fio de seda usado para urdir.

Nem por isso, no entanto, o impacto do surgimento das indústrias seria menor. As grandes fábricas “causaram uma ruptura radical com o passado, a vida material e os horizontes intelectuais”.

Freeman sustenta a afirmação com números eloquentes: “O crescimento médio anual per capita da produção econômica global durante o período entre o nascimento de Jesus e a primeira fábrica foi basicamente zero. Mas, no século 18, começou a aumentar, e entre 1823 e 1913 se aproximou de 1%. Desde então foi maior, com um pico de quase 3% entre 1950 e 1970”.

Projeto ambicioso, o livro ganha consistência analítica quando o autor mergulha nas razões que teriam viabilizado a evolução de tais fábricas. Ele nota que, até os anos 1970, a historiografia dava um peso excessivo ao aspecto tecnológico. As inovações desempenharam seu papel no desenvolvimento da indústria, claro, mas a principal força motriz teria sido a supervisão do trabalho.

A tese, atribuída à produção acadêmica neomarxista, é que a ascensão do sistema fabril decorreu sobretudo da possibilidade de fazer os trabalhadores, concentrados no mesmo local, produzirem por mais tempo e com mais intensidade do que se estivessem dispersos.

A fábrica impôs novos hábitos. Desde os primórdios, a pontualidade era um pré-requisito. Como os trabalhadores não tinham relógios, um preposto da empresa se encarregava de acordá-los todos os dias, batendo nas janelas com uma vara.

Além disso, no século 19 foram instaladas lâmpadas de gás a fim de prolongar as jornadas. Pouco depois, para os operários se locomoverem mais rapidamente nas fábricas, patrões construíram “túneis verticais” onde foram colocados elevadores.

A propósito, Freeman cita Marx, que escreveu em “O Capital”: “No artesanato e na manufatura, o operário faz uso da ferramenta; na fábrica, a máquina faz uso dele”.

Daí a importância da supervisão. “A ideia de vigilância contínua seria cada vez mais parte do regime fabril, chegando ao auge em nossos tempos”, afirma o autor. “Os donos precisaram criar uma infraestrutura física, social e psicológica para possibilitar a produção industrial.”

O outro lado da moeda é que a fábrica tirou pessoas do campo e lhes deu um horizonte cosmopolita. Freeman argumenta que, embora a ideologia dominante associe a Revolução Industrial à liberdade individual e ao livre mercado, “nos primeiros anos do sistema fabril podia ser tanto considerada uma nova forma de escravidão quanto uma nova forma de liberdade”. 

As fábricas mastodônticas não são tão sólidas e longevas quanto parecem. “Poucas duram mais do que uma ou duas vidas”, contabiliza Freeman. O dinamismo da modernidade leva ao seu desaparecimento. Apesar das inovações, elas se tornam obsoletas e caras. O gigantismo, porém, é tão insustentável quanto resiliente. Se declina nos Estados Unidos, floresce na China, criando novas possibilidades de riqueza.

Qualquer que seja o seu futuro, diz Freeman, já deixou como sua herança um mundo transformado. “A Revolução Industrial, impulsionada pela fábrica gigante, contribuiu não só para elevar o padrão de vida mas também para a criação do Estado moderno e da sociedade urbanizada”.

Embora arrastada em trechos inflados com detalhes prescindíveis, a narrativa de “Mastodontes” oferece material para reflexão sobre o mundo que se quer deixar para as próximas gerações.

E O BRASIL?

Freeman não cita o Brasil em “Mastodontes”, exceto por uma breve menção a d. Pedro 2º, em razão de sua participação na inauguração de uma importante feira industrial em Filadélfia em 1876, que marcou o centenário da Declaração de Independência dos Estados Unidos. 

Embora seja uma nota de rodapé na história mundial das grandes fábricas, o Brasil produziu seus gigantes. Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), o Barão de Mauá, tem o seu lugar garantido na narrativa pelo pioneirismo, como mostrou Jorge Caldeira no festejado “Mauá - Empresário do Império”. 

Antes de o imperador visitar os EUA, Mauá já tinha colocado de pé um grande estaleiro e uma fundição em Niterói (RJ), introduzindo modernidade num país ainda provinciano. 

No século seguinte, o sinônimo de indústria brasileira foi o conde Francesco Matarazzo (1854-1937). Dono de um império, o empresário teve sua vida contada com riqueza por Ronaldo Costa Couto em “Matarazzo”, publicado em dois volumes. 

Freeman observa que grandes fábricas costumam ter vida relativamente curta, não mais do que algumas gerações. Os casos brasileiros não foram exceção.

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