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11/04/2019 | Comércio de bens ou de serviços? - Valor Econômico

Nestes dias de acaloradas controvérsias sobre comércio internacional, frequentemente ouvimos dizer que o país A tem déficit com o país B, ou que o país C é menos competitivo que o país D. Infelizmente, estas mensagens são normalmente baseadas em análises parciais, pois quase sempre não levam em conta o comércio de serviços. As causas da omissão são múltiplas e envolvem, para além da conveniência, uma espécie de inércia associada à antiga visão de que países compram e vendem majoritariamente bens.

Esta inércia também está ancorada na academia, que segue mirando bens como objeto central do ensino e pesquisa em comércio internacional. O problema é que o setor de serviços se tornou central na economia moderna. De fato, os serviços já perfazem a maior parte de praticamente todas as economias do globo; nove das dez empresas mais valiosas da bolsa americana são do setor de serviços; e novas métricas e bases de dados mostram que os serviços já predominam nos fluxos comerciais. Os serviços são exportados majoritariamente "embarcados" ou em complemento a um bem e cerca de 75% do comércio internacional de serviços consiste de insumos intermediários. Em razão de novos modelos de negócios e de novas tecnologias de produção e de gestão, bens e serviços se tornaram altamente interdependentes e perdeu sentido a suposta dicotomia entre comércio de bens e serviços.

Mas há outras razões para não ignorarmos os serviços e, dentre elas, estão as evidências de que o comércio de serviços cresce mais e é substancialmente menos volátil que o de bens; os modelos de negócios de serviços são normalmente muito mais sofisticados e dinâmicos que os de bens; empresas de serviços se tornaram os principais promotores de novas tecnologias; a exportação de serviços estimula a adoção de padrões técnicos e regulatórios que levam a um processo de involuntária fidelização do cliente; o setor passa por uma concentração sem precedentes em nível global; e os serviços já são a parte que mais agrega valor em cadeias globais de produção - pense no tratamento do câncer por imunoterapia, cujo custo por ampola chega a dezenas de milhares de dólares em razão da propriedade intelectual. Cerca de 70% do comércio global de serviços têm origem nos países avançados, mas estima-se que aquela participação estaria subestimada porque muitos serviços digitais e operações intracompanhias não seriam devidamente contabilizados. Os países avançados operam com um multibilionário superávit em serviços e a tendência é de aprofundamento desse desequilíbrio. Considere os casos dos Estados Unidos e Reino Unido, que têm um superávit anual no setor na casa dos US$ 300 bilhões e US$ 150 bilhões, respectivamente. Isto tudo ajuda a explicar porque o setor se tornou o principal destino dos investimentos diretos estrangeiros e das operações de M&A no mundo.

Explica, também, a prioridade das economias avançadas para a área dos serviços e o seu ativismo em favor da total liberalização do setor, como bem ilustram as recentes discussões sobre a reforma da OMC e as ácidas disputas comerciais contemporâneas. Estamos testemunhando, isto sim, uma crescente dicotomia entre, de um lado, produtores, gestores e distribuidores de serviços e, de outro lado, consumidores daqueles serviços, incluindo os digitais, o que ajudaria a explicar as diferenças nas perspectivas de geração de emprego e crescimento econômico entre países. Robert Lucas, da Universidade de Chicago, um dos mais influentes economistas vivos, disse: "Uma vez que se começa a pensar sobre desenvolvimento econômico, é difícil pensar em qualquer outra coisa". Mas, em vista das características, da evolução e das implicações do setor de serviços, não parece exagero dizer que uma vez que se começa a pensar sobre a economia do intangível, é difícil pensar em qualquer outra coisa. Para a América Latina, que precisa encontrar um modelo de crescimento mais sustentado, o tema dos serviços é fundamental e não pode e nem deve ser visto como uma agenda secundária.

Embora a participação do setor no PIB da região seja maior que nas demais regiões em desenvolvimento, a participação da região no comércio global de serviços é desproporcionalmente baixa e o comércio é altamente deficitário, o que é insustentável. Isto pode ser explicado, em parte, pelos serviços ali produzidos serem majoritariamente voltados para o consumo, pela falta de uma estratégia e pela produtividade de um trabalhador latino-americano do setor de serviços ser equivalente a apenas 18% de um americano. Há, portanto, enorme necessidade de investimentos e de modernização do setor. Costa Rica, Panamá e Uruguai estão entre os países com melhor desempenho comercial em serviços. Porém, há que se ter em conta que avanços tecnológicos já começam a substituir serviços intensivos em trabalho, que são os mais exportados pelos países emergentes. Com a chegada da tecnologia 5G e com a expansão das fronteiras de prestação de serviços remotos para áreas como educação, saúde, finanças, produção e manutenção, os desafios para os países latino-americanos serão ainda maiores.

A região precisa colocar o setor de serviços na agenda de política pública sob pena de perder o bonde que está passando bem na nossa porta. A tarefa não será trivial, mas podemos nos inspirar em alguns bem-sucedidos negócios de empresas locais de serviços e em ricas experiências de outros países emergentes. Para avançarmos, será preciso ambição, pragmatismo e um olhar arejado sobre as fontes do dinamismo econômico no século XXI.

Jorge Arbache é vice-presidente de setor privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) e escreve mensalmente neste espaço.

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