• Pontaria Novo Governo
  • Fatos & Notícias
  • BOLETOS ON-LINE
  • app do sindeprestem
  • coffee news mudou para melhor
  • sindeprestem 2018
  • CONTRIBUIÇÃO PATRONAL 2018

28/03/2019 | É cedo para apostar contra a reforma, diz ex-diretor do BC - Valor Econômico

A deterioração do ambiente político na última semana, agravada pela troca pública de provocações entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, abalou a confiança dos mercados financeiros no avanço da mais importante pauta do governo: a reforma da Previdência. O receio de que o governo não consiga fazer a articulação política de forma a viabilizar uma reforma suficiente para afastar o risco de solvência do país no médio prazo fez o dólar disparar e derrubou a bolsa de valores. Para o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, Rodrigo Azevedo, hoje sócio e gestor da Ibiúna Investimentos, ainda é cedo para apostar que não haverá reforma.

Mas o que o mercado está refletindo é que os riscos de cauda tornaram-se muito mais elevados. "Você pode dizer que há uma disputa entre Congresso e presidente, mas não é racional assumir que os dois vão levar às extremas consequências essa postura, que seria explosiva para o país", afirma Azevedo. "A gente acredita que, em algum momento, os agentes que estão liderando o país serão racionais, embora reconheça que essa hipótese tornou-se menos provável diante dos últimos acontecimentos." Para Azevedo, embora a temperatura em Brasília tenha subido, nem o Executivo, nem o Legislativo adotaram uma retórica contrária à reforma. "É uma negociação que está em curso... A negociação evolui, não é estanque, há recuos e avanços. Até agora não vi um ato que seja definitivo", afirma. A ansiedade do mercado financeiro com esse tema, entretanto, é bastante justificada: a aprovação da reforma é condição necessária para que o crescimento econômico seja, enfim, retomado. Além de ser uma medida fundamental para conter o desarranjo das contas públicas, trata-se de um teste sobre a capacidade de governabilidade deste governo, sobre a qual pesa muito ceticismo. "Não vamos resolver o problema fiscal de uma hora para a outra. Mas a reforma tem um simbolismo", diz.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Por que a recuperação da atividade voltou a frustrar as expectativas? Rodrigo

Azevedo: O Brasil, em outros momentos em que sofreu retrações significativas da atividade, mostrou uma capacidade de recuperação muito mais rápida do que a vista até aqui. Existe uma corrente que acha que o processo de desalavancagem, em que você limpa o balanço das empresas e das famílias e permite que elas se endividem novamente, está acontecendo de maneira mais lenta. Mas o prazo médio do endividamento no Brasil é curto e não houve um problema do setor bancário, que foi colocado numa situação de teste de estresse, com inadimplência subindo significativamente, e sobreviveu. Então, eu acho que o setor bancário está intacto, está pronto para emprestar e, por isso, essa não parece ser uma boa interpretação. Eu gosto mais da percepção de que a gente vinha de um modelo econômico em que a participação do Estado era muito significativa, tanto por causa dos gastos quanto por causa do crédito subsidiado. E era visto como regulador, interventor. Essa dinâmica, que veio até o fim dos anos Dilma, gerou um maior espaço para o setor público e menor para o privado. Mas isso mudou, tanto pelo modelo econômico adotado no governo Temer e aprofundado pelo governo Bolsonaro e também porque acabou o espaço de o Estado estimular a economia. Então, o que aconteceu é que o setor privado tem agora que liderar o crescimento. Só que há incertezas muito significativas nos últimos dois anos, e que permanecem, à medida que existe essa dúvida acerca da execução da reforma da Previdência. Se você tem que tomar uma decisão de consumo de médio e longo prazos, é natural que os agentes econômicos esperem a redução da incerteza.

Valor: Mas como a reforma da Previdência vai influenciar, efetivamente, a dinâmica do crescimento?

Azevedo: A reforma da Previdência é necessária, mas ela não é suficiente para gerar crescimento. Não vamos resolver o problema fiscal de uma hora para a outra. Mas a reforma tem um simbolismo. Nota-se um ceticismo sobre a capacidade de execução dessa agenda liberal, que é muito construtiva do ponto de vista de ambiente de negócios e potencial de crescimento do país. A reforma é impactante e difícil de aprovar. Se houver articulação política para aprová-la, isso será visto como um indicador de que todo o resto da agenda tem maior chance de ser implementada. Acho que ela adota, além da questão fiscal, um símbolo de capacidade de execução deste governo. Acho que se ela avançar, os agentes vão sentir muito mais inclinados a dar o benefício da dúvida. Acreditar que o futuro terá menos incerteza e esse pode ser um gatilho para o investimento local e estrangeiro. À medida que o processo ratifica a percepção de que será difícil executar a agenda, fica muito mais difícil fazer uma trajetória de crescimento significativo à frente, de deslanchar a retomada brasileira, mesmo com a Selic no nível de 6,5%. Isso vai definir muito o cenário e, por isso, nesse momento o cenário será muito mais influenciado pela capacidade de entrega do governo do que pelo cenário externo, a menos que você tenha cenários extremos lá fora.

Valor: Qual a chance da reforma da Previdência ser aprovada agora, com a piora do ambiente político?

Azevedo: Aumentou a incerteza, mas o ambiente é muito fluido e é difícil atribuir uma probabilidade definitiva para um lado ou para o outro. E como isso se traduz, do ponto de vista do mercado, é que os ativos têm que ter mais prêmio de risco. Por isso o Ibovespa caiu cerca de 7%, de 100 mil pontos para o patamar atual, perto de 91 mil pontos, o dólar subiu e a curva de juros ficou mais inclinada. Isso reflete a maior incerteza. No começo do ano, se atribuía baixa probabilidade a cenários adversos, que podem ser tanto de um atraso com diluição, pode ser que a reforma não passe. Agora, essas probabilidades voltaram. Você pode dizer que há uma disputa entre Congresso e presidente, mas não é racional assumir que os dois vão levar às extremas consequências essa postura, que seria explosiva para o país. A gente acredita que, em algum momento, os agentes que estão liderando o país serão racionais, embora reconheça que essa hipótese tornou-se menos provável diante dos últimos acontecimentos.

Valor: No que o mercado se baseia para acreditar que é possível aprovar a reforma?

Azevedo: Na terça-feira, nós tivemos uma votação expressiva de uma votação constitucional [a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional do investimento impositivo], que aconteceu em dois turnos, num único dia.

Valor: Mas isso foi uma retaliação ao próprio governo.

Azevedo: O meu ponto é que, processualmente, quando o Congresso quer, ele consegue acelerar os prazos. Se eles se entenderem, há uma maioria constituída para aprovar alguma coisa. E pode aprovar rápido. Esse cenário deixou de ser muito provável, mas não é um cenário de probabilidade baixa. Acho que você tem que atribuir probabilidades a cenários e não se deixar levar por eventos de curto prazo. Os eventos geram muito conflito e não se pode fazer uma análise emocional, achando que tudo mudou para um lado ou para o outro. Agora, as probabilidades de um atraso maior da reforma, de uma reforma mais diluída ou mesmo de não aprovação, subiram. Mas a probabilidade de aprovação passou a ser zero? Os eventos recentes ainda não justificam essa avaliação.

Valor: O que o mercado enxerga para acreditar que a racionalidade será retomada?

Azevedo: Política é a arte da negociação. É uma negociação que está em curso, entre o Congresso e o Executivo. A negociação evolui, não é estanque, há recuos e avanços. Até agora não vi um ato que seja definitivo que diga: enterrou-se a reforma ou o contrário, temos certeza que ela será aprovada. Mas cresceu a chance de haver cenários adversos. A retórica que ouvimos de Brasília não é antirreforma. Até a semana passada, a percepção era de que a negociação estava avançando e havia um processo de convergência. Houve reuniões do Rodrigo Maia com o presidente Bolsonaro, com o [presidente do Senado, Davi] Alcolumbre, com o [presidente do Senado, Dias] Toffolli, e havia uma série de evidências de que o processo estava convergindo. Mas esse processo teve uma reversão. Mas ainda não é algo definitivo.

Valor: O que seria o mínimo para se considerar que a reforma foi suficiente e haja um reforço dessa confiança?

Azevedo: Há dois parâmetros. Um deles é se a reforma vai ser melhor ou parecida com a proposta pelo Temer que, grosso modo, previa uma economia entre R$ 500 bilhões e R$ 600 bilhões. Naquele momento, os agentes financeiros avaliavam que esse valor era suficiente. Mas o tempo passou. Aquilo era suficiente em 2017. Hoje em dia precisa de mais do que isso. Um número que tem sido avaliado, é que, como a diluição em relação ao projeto do Temer era de 30%, teríamos agora algo em torno de R$ 800 bilhões. Esse valor ajuda bastante, mas parece estar perto do mínimo. A questão importante é que, quão menor for a economia, menos espaço fiscal você tem para trabalhar o resto da agenda que tem que ser implementada. Se há um colchão maior com a reforma da Previdência, abre-se muito mais espaço para outros elementos no gasto público. Por exemplo, investimento em infraestrutura, que é importante, ou mesmo em educação e saúde, outros elementos da agenda que também são muito importantes. Então, é uma condição necessária, pelo menos uns R$ 800 bilhões. E quanto mais para cima for o valor, haverá mais potência para o resto da agenda ganhar corpo e ser mais eficaz.

Valor: Há aspectos qualitativos da reforma que precisam ser observados? A maneira como se vai alcançar essa economia faz diferença?

Azevedo: Acho que isso tem um impacto mais significativo sobre a estratégia política de aprovação da reforma e tem um aspecto sobre equidade, olhando mais à frente. Não do ponto de vista estrito das contas fiscais. Mas, logicamente, a qualidade do gasto vai ser afetada por isso.

Valor: Sobre o prazo de aprovação, há um limite aceitável?

Azevedo: Acho que a questão do prazo está mais associada à probabilidade de aprovação de uma reforma mais consistente. Sabe-se que essa é uma reforma dura e é preciso ter capital político para aprová-la. E quão mais perto do início do governo, o capital político tende a ser mais forte. Já vimos as pesquisas mostrando queda da popularidade desde o início do governo. Quanto mais tempo demorar, provavelmente o presidente terá menos capital político para gastar. E o resultado disso pode ser uma reforma mais diluída.

Valor: Se a PEC do investimento impositivo for aprovada pelo Senado, ela pode ameaçar o cumprimento do teto de gastos?

Azevedo: Pelo contrário. O que vai fazer o ajuste passará a ser o teto de gastos, que também é uma medida constitucional. Se não conseguir executar o que o Congresso manda e bater no teto de gastos, a Constituição já prevê os gatilhos que serão ajustados no Orçamento do ano seguinte. É um processo mais difícil de gerenciar, mas o teto de gastos será mais relevante do que tinha antes. Mas, claro, não é bom, quando o ministro Paulo Guedes está sinalizando que é preciso ter mais flexibilidade, ir na direção contrária. É um recado muito importante que o Executivo precisa entender, que precisa se mobilizar para montar uma base que seja atuante e permita ter algum controle sobre o processo legislativo. A história de presidentes no Brasil que não tiveram apoio no Congresso não é boa. Seja porque você perde o controle da pauta legislativa, que é a consequência mais leve, seja porque abre a possibilidade de cenários mais extremos.

Valor: Há uma ameaça de algo semelhante ao que se viu no governo Dilma?

Azevedo: Acho que precisa acontecer muita coisa para um cenário de cauda como esse ganhar probabilidade.

Valor: O mercado externo também piorou muito, contribuindo para a piora dos ativos locais. O que está por trás disso? Há realmente um risco de uma nova recessão?

Azevedo: O ambiente global é caracterizado neste momento por uma frustração da perspectiva de crescimento que se tinha em 2016 e 2017, que sofreu uma inflexão em 2018. O pico do crescimento ficou para trás e a questão, neste momento, é o quanto essa desaceleração vai se intensificar. Os Estados Unidos vêm de um crescimento acima do potencial, muito influenciado pelo pacote fiscal do presidente Trump e era natural que, combinado com o aperto da política monetária, houvesse uma desaceleração. O cenário-base era de uma desaceleração do ritmo de crescimento, mas começaram a surgir dúvidas se isso não poderia levar a um crescimento abaixo do potencial ou mesmo a uma recessão. Parte da história é que os Estados Unidos são uma economia muito integrada com o mundo e, à medida que o mundo desacelera, ele pode puxar os Estados Unidos para baixo também. A China tem um processo de redução do ritmo de crescimento, que estava muito elevado e um excesso de endividamento, que precisa ser desalavancado, processo que pode levar a uma desaceleração. Se Estados Unidos e China têm uma desaceleração dessa magnitude, o mundo inteiro desacelera. E a Europa, em particular, sofre bastante por causa de seu componente de exportações para Estados Unidos e China. Neste momento, a preocupação maior está centrada na Europa, porque existe a percepção de que tanto Estados Unidos quanto a China têm capacidade de prover estímulos pra tentar suavizar o processo de desaceleração. Enquanto a Europa continua com política monetária com taxa de juros negativa, com muito pouco espaço para estimular a economia. O que aconteceu recentemente é que esperava-se que haveria uma virada desse processo no primeiro trimestre e, até agora, isso está acontecendo de forma muito tênue, com alguns indicadores mostrando retração. Nesse ambiente, mesmo um estímulo de maior liquidez não impede que haja aversão ao risco, levando investidores a buscarem um porto-seguro, uma concentração da liquidez em dólar. A questão é que, se tivermos uma desaceleração com liquidez maior, isso vai ser benéfico para ativos de risco. Mas se tivermos um aprofundamento da desaceleração, então veremos um processo de reavaliação do apetite por risco.

Valor: Qual é o seu cenário?

Azevedo: O cenário com o qual nós trabalhamos é que já houve uma desaceleração muito significativa, já houve um grau de estímulo, as condições financeiras nos Estados Unidos já relaxaram de maneira significativa de dezembro para cá, a China já vem provendo estímulos e a própria Europa inverteu o curso da política monetária. Só que o efeito desse conjunto de ações leva tempo para se concretizar. Existe um cenário-base em que se consegue estabilizar o crescimento no segundo semestre. Mas a gente não sabe, nos próximos dois ou três meses, o quão profundo pode ser esse movimento de desaceleração antes de haver essa estabilização.

Valor: Esse quadro pode levar o Banco Central do Brasil a cortar os juros?

Azevedo: No meu cenário, a Selic fica parada por um período muito mais prolongado. O BC vai esperar passar este momento de incertezas e, quando isso acontecer, haverá outras questões. Acho que a principal incerteza que teremos daqui a três meses é que, se de fato a reforma for bem encaminhada, pode ter uma reaceleração da economia.

Valor: A alta do dólar pode levar o Banco Central a ter que intervir, usando swaps, por exemplo?

Azevedo: Os movimentos do mercado de câmbio têm sido muito ordenados, têm acontecido com liquidez, não tem tido nenhum sinal daquelas condições que tipicamente demandam atuação do Banco Central, que é um processo de formação de preços sem liquidez. Até agora, não vejo razão nenhuma para uma intervenção do Banco Central. Acho que o que estamos vendo é um processo de ordenado de ajuste a maiores incertezas, locais e externas. O câmbio flutuante serve exatamente para isso, para absorver uma parte do choque sobre a economia.

Fatos e Notícias

Home Logo01
Home Logo02
Home Logo03
Home Logo04
Catho
Up Plan Logo 02