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22/01/2019 | 'Os mercados não estão melhorando à toa' , diz Figueiredo - Valor Econômico

Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central, está confiante na capacidade de o governo Jair Bolsonaro aprovar as reformas que o país precisa, sobretudo a da Previdência. Em entrevista ao Valor, ele ressalta que "os mercados não estão melhorando à toa". "A bolsa brasileira não está batendo recordes, o real não está apreciando e a curva de juros não está fechando à toa. Isso é porque as pessoas estão vendo que o mais provável é que aconteçam as coisas que são relevantes para o futuro do Brasil." Figueiredo divide a sua avaliação das primeiras semanas de Jair Bolsonaro à frente da presidência da República em duas vertentes. Primeiro, a escolha da equipe econômica, que considerou "impecável". Segundo, a postura prudente e com senso de maturidade do governo na sua relação com o Congresso. "O Palácio do Planalto não está tentando impor nomes à sucessão nas presidências da Câmara e do Senado. O governo não pretender liderar o processo. O que o governo quer, na minha ótica, é ter uma base grande e o mais sólida possível."

Essa é uma questão importante porque foi na disputa pela presidência da Câmara que a ex-presidente Dilma Rousseff inaugurou seu inferno astral. Ela bateu de frente com o então postulante do PMDB, deputado Eduardo Cunha (RJ), ao pretender emplacar seu candidato à presidência da Câmara, o então deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), que foi derrotado. "O que eu estou achando muito bom é que esse governo não está entrando em bola dividida." Para ele, os bate-cabeças iniciais do presidente com alguns dos seus subordinados não têm importância e eram, inclusive, previsíveis. Já as denúncias contra o filho do presidente, Flávio Bolsonaro, "desgastam".

Valor: Como o sr. avalia as primeiras semanas de governo? Houve muitos bate-cabeças?

Luiz Fernando Figueiredo: Vejo as coisas sob duas vertentes. A primeira foram as nomeações e posso falar mais da área econômica do que nas outras áreas. Elas foram impecáveis. Todas as pessoas contratadas são muito boas e muito especializadas no que vão fazer. A estrutura montada com supersecretarias ocupadas por pessoas seniores tem muita capacidade de entrega, que é um dos grandes receios que se têm dessa nova gestão.

Valor: O que garante que haverá bons retornos dessas sete secretarias do Ministério da Economia, ocupadas por praticamente vice-ministros?

Figueiredo: Quando você tem gente boa, por mais dificuldade que se tenha para fazer as arrumações no início, é meio caminho andado. Isso vale tanto para o Ministério da Economia quanto para o Banco Central. Outras áreas do governo, como Justiça, foram excelentes; outras, nem tanto.

Valor: Os ruídos iniciais, com o presidente sendo desmentido por seus subordinados, não causaram estranheza? 

Figueiredo: Na minha visão, ruídos sempre vão existir. Temos que ver o que é para valer e o que não é para valer. Em todas as entrevistas que eu dei nos últimos três meses, eu dizia que iria ter bateção de cabeças. Você não começa uma empresa ou um governo com 100 pessoas, 200 pessoas que começam a trabalhar juntas que não tenha uma bateção de cabeça. É normal! Eu até acho que a imprensa está focando no lugar errado.

Valor: Por quê?

Figueiredo: Está focando nas pequenas coisas e não está olhando a fotografia geral. Os mercados não estão melhorando à toa. A bolsa brasileira não está batendo recordes, o real não está apreciando e a curva de juros não está fechando à toa. Isso é porque as pessoas estão vendo que o mais provável é que aconteçam as coisas que são relevantes para o futuro do Brasil.

Valor: O bombardeio crescente de denúncias contra o filho do presidente, Flávio Bolsonaro, não é preocupante?

Figueiredo: Desgasta, mas o importante é ficar claro se isso é coisa só do filho ou se o presidente, de alguma forma, está envolvido.

Valor: E a outra vertente?

Figueiredo: É a política. A relação que foi feita com o Congresso, com a questão da presidência da Câmara, tem sido muito bem feita.

Valor: O sr. se refere ao fato de o Palácio do Planalto não tentar impor nomes à sucessão nas presidências da Câmara e do Senado?

Figueiredo: Isso, do governo não pretender liderar o processo. O que o governo quer, na minha ótica, é ter uma base grande e o mais sólida possível. Vale lembrar que o primeiro erro da Dilma [a ex-presidente Dilma Rousseff] foi tentar emplacar o seu candidato à presidência da Câmara e perdeu para o Eduardo Cunha. O que eu estou achando muito bom é que esse governo não está entrando em bola dividida.

Valor: A situação financeira de alguns Estados é lamentável. Qual deveria ser a posição dos novos governadores?

Figueiredo: O Doria [João Doria, governador de São Paulo] disse que a bancada dos governadores vai apoiar a reforma da Previdência. Essa foi uma coisa que o Temer tentou e não conseguiu.

Valor: Será?

Figueiredo: Pela primeira vez em muito tempo a agenda dos governadores não é conflitante com a do governo federal. Porque, para eles, não adianta mais só renegociar as dívidas. O buraco é muito mais fundo. Os governadores terão que fazer reformas profundas e muito rapidamente, senão não vão conseguir governar.

Valor: Isso aumenta muito as chances de aprovação da nova Previdência?

Figueiredo: Exatamente. Quando você olha as condições da reforma andar, elas aumentaram de dois meses pra cá. E aumentaram bem. Um outro elemento que também ajuda são os índices de confiança que deram um salto da eleição para cá. Nunca vou me esquecer do índice que saiu da CNI, logo depois da eleição, referente a novembro, que deu um pulo de nove pontos e, se não me engano, passou de 53 para 62. Acho que isso não acontecia há oito ou dez anos. Um outro aspecto é que quando você olha os próprios sinais de popularidade e de apoio à reforma, eles cresceram bastante nesses últimos dias.

Valor: O sr. vislumbra um aquecimento da atividade?

Figueiredo: A atividade começou a dar uma aquecida, o que faz com que também o ambiente melhore. Tudo isso corrobora para ser aprovada a reforma.

Valor: O governo já não deveria ter pronta uma proposta para a Previdência? 

Figueiredo: Veja, uma outra coisa que me pareceu de muito bom senso, foi o Paulo Guedes [ministro da Economia] e a equipe estudarem as várias propostas para, no final, ter a melhor reforma possível. E até onde se tem informação, ela deve ser uma reforma mais robusta do que aquela do Michel Temer. Ela deverá contemplar a criação do sistema de capitalização, que começará um processo de solução mais definitiva para a Previdência no longo prazo. Nunca uma reforma da Previdência é completamente definitiva, mas a do governo está com uma cara mais permanente.

Valor: Já foram publicadas tantas alternativas de mudanças que tenho dificuldade de ver o que é efetivo e o que não é...

Figueiredo: Várias coisas que eles disseram mostram um grau de ambição maior. Por exemplo, aparentemente será uma reforma com um prazo de transição mais curto, não de 20 anos como consta da proposta do Temer, mas de 15 anos. Isso faz com que o valor presente dela seja bem maior. Essa, por si só, já é uma mudança relevante. O regime de capitalização que vai junto. Ou seja, pelo jeito não será mais uma reforma fatiada.

Valor: Parece que o presidente será o porta -voz da proposta final. Isso é bom?

Figueiredo: Essa é outra coisa muito importante que não vi nenhum outro governo fazer com tanta ênfase. Pelo que foi dito, o próprio presidente Jair Bolsonaro vai ser o porta-voz da reforma. Tudo isso somado faz com que a gente olhe e diga: 'Bom, nós temos uma reforma que é muito importante, mais ambiciosa do que a que está em tramitação no Congresso e cujas chances de aprovação estão crescendo'. Ninguém pode se iludir e achar que só na conversa as coisas vão continuar melhorando, não vão. Nós precisamos aprovar a reforma.

Valor: O programa econômico do governo, porém, não se esgota aí. É preciso não só arrumar a área fiscal, mas buscar ganhos de produtividade. Afinal, não é possível um trabalhador no Brasil produzir um quarto do que produz um trabalhador nos Estados Unidos, não é?

Figueiredo: É verdade. Há uma agenda que está vindo aí que é uma agenda de desburocratização, de limpeza de um monte de coisas, fora a própria privatização, a abertura da economia, a simplificação tributária. E há, também, uma série de coisinhas, de pequenos símbolos, de excessos que este governo está cortando que, somadas, formam uma percepção relevante.

Valor: Quais coisinhas?

Figueiredo: Eu até fiz uma lista de umas cinco ou seis medidas. Por exemplo, foi cancelada a dotação de R$ 44 milhões destinada ao programa de desenvolvimento de criptomoedas, aprovada no apagar das luzes do ano passado; teve o corte de R$ 2,5 bilhões de verba para publicidade da Caixa, que é um banco quase quebrado; e teve, também, a notícia de que 520.148 pessoas solicitaram desligamento voluntário do Bolsa Família, em ação de combate a fraudes. A própria redução do número de ministérios, para 22. São ações que dão às pessoas a sensação de que pela primeira vez em muito tempo estão começando a levar a sério o dinheiro público. Isso é só o início, são as primeiras medidas, mas o caminho é o que estava todo mundo esperando.

Valor: O sr. se referiu ao comportamento dos mercados nas últimas semanas, que indica boas expectativas. Não há um pouco de torcida para que as coisas deem certo?

Figueiredo: Não. Porque ninguém toma risco com torcida; toma risco porque acredita, porque tem a expectativa do que vai acontecer. O mercado não acredita em conto da carochinha. Ninguém vai tomar um risco se a probabilidade de dar certo for baixa. É quase que um consenso entre os agentes econômicos de que as chances de nós avançarmos numa agenda bem razoável de reformas aumentou muito. Eu não estou falando uma novidade aqui.

Valor: Mas o que comprova a existência desse quase consenso?

Figueiredo: Olha o que aconteceu com o risco Brasil, por exemplo. O Credit Default Swap (CDS), que mensura o risco do Brasil, fechou uma barbaridade! Se olharmos o rating da Standard & Poor's, ele está dois graus acima. Se a agência seguisse o que acontece com o CDS, o país deveria ter um upgrade. O problema é que as agências de rating são mais lentas e precisam ver o quanto vai avançar a reforma da Previdência.

Valor: Essa percepção de melhora já mudou o quadro no setor real?

Figueiredo: Estamos bem no início de um processo, mas você vê as vendas aumentando, os pedidos aumentando. Ninguém está falando em investimento, certo? Mas, até por conta da eleição, passou um longo tempo em que se inibiu o consumo. O mês de dezembro, em termos de vendas, foi muito bom. As pessoas estão voltando a consumir. Agora, ninguém está falando em uma taxa de crescimento absurda. Nossa previsão para este ano é de 3%.

Valor: O país só estará em uma situação confortável quando houver expansão do investimento e este não apresenta sinais de crescimento.

Figueiredo: É, mas a expansão de investimento é uma segunda onda. No primeiro momento tem o aumento da demanda, o crescimento das vendas. Já o investimento para valer precisa ser mais do que só expectativa. Os mercados líquidos vivem de expectativa. Se as expectativas não se traduzem em aumento de demanda, não vai ter investimento, não vai ter nada.

Valor: O que lhe garante que estamos no início de um ciclo bom?

Figueiredo: Do primeiro mandato da Dilma para o segundo mandato, o legado que ela recebeu de si mesma era um desastre. O que acontece com o Bolsonaro hoje é exatamente o contrário. Ele encontrou a economia com ociosidade e com inflação baixa e juros baixos. As empresas reduziram fortemente os seus custos e têm, agora, muita capacidade de crescer o faturamento sem aumentar custos. Elas se desalavancaram e como há muita ociosidade, não é preciso mais juros durante algum tempo. Acho que os juros não precisam, agora, nem ir para a taxa neutra, pode esperar um pouco mais. O balanço de pagamentos está consolidado. Então, Bolsonaro pegou a economia prontinha para recuperar. Caso ele consiga - e a probabilidade está aumentando - aprovar uma agenda razoável, a componente cíclica se transforma em estrutural.

Valor: E se não der certo?

Figueiredo: Veja, hoje está mais difícil dar errado do que dar certo.

Valor: Por que?

Figueiredo: Não tem nenhum sinal - nenhum, zero - de que o governo não está, de fato, indo pra uma agenda liberal na área econômica. Pelo contrário: todas as indicações reforçam que isso está acontecendo. E esse governo tem uma diferença de governos anteriores, quando havia conflito dentro da equipe entre desenvolvimentistas e ortodoxos.

Valor: O sr. enfatizou as boas perspectivas. E os riscos, quais são?

Figueiredo: Bom, tem um risco de o ambiente externo piorar muito, a economia americana entrar em recessão e o mundo desacelerar muito. No fim do ano os mercado tinham, implícito, o risco de 50% da economia americana entrar em recessão em 2020. É muito. Esse risco já reduziu. Esse não é o cenário principal, mas tem que ser monitorado. O ambiente externo vai ser volátil.

Valor: Internamente, quais seriam?

Figueiredo: É o risco de o governo não conseguir conduzir bem no Congresso a tramitação da reforma. Mas até agora, o presidente tem dado sinais de muita maturidade.

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