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21/01/2019 | Caged e Pnad 'brigam', mas vão na mesma direção - Valor Econômico

Desde o início de 2018, uma questão atormenta analistas que acompanham estatísticas do mercado de trabalho brasileiro: por que o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostra há meses geração de vagas formais no acumulado de 12 meses, enquanto a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua segue apontando destruição de postos com carteira? Especialistas não têm respostas fechadas para a questão, mas destacam que ambas as estatísticas apontam para um mesmo quadro de melhora gradual do emprego. "Os dados seguem uma mesma tendência e dá para projetar que, em pouco tempo, a Pnad Contínua vai passar ao campo positivo", prevê Daniel Duque, pesquisador do Ibre-FGV. Ele lembra que o trabalho formal é mais sensível que o emprego total ao crescimento econômico, previsto para acelerar este ano - de um Produto Interno Bruto (PIB) de 1,3% em 2018 para 2,6% em 2019, segundo as estimativas do Focus.

Até novembro, o Caged mostrava a criação líquida de 517,7 mil vagas formais no acumulado de 12 meses. Já a Pnad Contínua apontava, em igual base de comparação, a perda de 143 mil empregos com carteira nos setores público e privado. O saldo negativo na Pnad tem, no entanto, diminuído mês a mês. Antes coordenado pelo Ministério do Trabalho e agora a cargo da Secretaria da Previdência e Trabalho do novo Ministério da Economia, o Caged é um registro administrativo alimentado mensalmente pelos estabelecimentos formais. Com período de referência mensal, ele abrange os empregos com contratos regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Já a Pnad Contínua é uma pesquisa amostral, realizada pelo IBGE nos domicílios.

Diferentemente do Caged, ela se baseia na declaração da pessoa entrevistada, não da empresa. Além disso, a pesquisa busca representar a totalidade da força de trabalho brasileira, incluindo trabalhadores informais, domésticos, empregadores e desempregados. É divulgada mensalmente e tem como referência o trimestre móvel encerrado no mês anterior. Apesar das diferenças metodológicas, as duas pesquisas costumam mostrar tendências parecidas para o emprego formal. Desde janeiro do ano passado, no entanto, o Caged passou ao campo positivo no acumulado de 12 meses, enquanto a Pnad segue no vermelho. A diferença, que os economistas esperavam que se fechasse em pouco tempo, tem perdurado. Já em junho, em artigo publicado no "Boletim Macro" do Ibre-FGV, os economistas Fernando Holanda e Tiago Barreira destacavam essa discrepância. Segundo eles, ao somar os funcionários públicos estatutários aos empregados celetistas dos setor público e privado na Pnad, a diferença entre a pesquisa e a variação no estoque do Caged é reduzida, sugerindo que estatuários poderiam estar sendo erroneamente incluídos no cadastro. O Valor questionou a Secretaria da Previdência e Trabalho sobre a possibilidade, sem resposta.

Além disso, os economistas afirmam que comparar o Caged com a Pnad do mês seguinte aproxima as duas séries, uma vez que o cadastro preenchido pelas empresas acaba captando antes demissões que só serão relatadas pelos trabalhadores à Pnad nos três meses posteriores. Por causa dessa diferença temporal, o Caged tem pico de demissões em dezembro, enquanto na Pnad, o momento mais grave para desligamentos acontece em março. Duque avalia, no entanto, que esses dois ajustes não são suficientes para explicar a atual diferença persistente entre Caged e Pnad. Ele cogita outras possiblidades, como o fato de o Caged não incluir todos os setores formais, também o problema das declarações entregues ao cadastro fora do prazo, ou algum erro de declaração na Pnad. Mas o economista admite que esses também seriam motivos insuficientes para explicar a questão.

Maria Andréia Lameiras, técnica de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cogita a possibilidade de uma "coincidência ruim" na amostra da Pnad, com os domicílios visitados pelo IBGE compostos por uma parcela maior de pessoas ainda na informalidade. Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, descarta totalmente a hipótese e defende a precisão da pesquisa. "A Pnad Contínua foi desenhada para representar o país como um todo, então não pode existir esse tipo de erro. Por que quando a situação econômica estava boa não se dizia que teve coincidência de a Pnad ir só nas casas com [pessoas com empregos com] carteira?", questiona. "Basta olhar nas ruas o número de pessoas vendendo quentinhas, trabalhando como camelô e moradores de rua para se ver que os dados da Pnad Contínua estão bem alinhados", defende Azeredo. "Pnad e Caged são registros diferentes, com metodologias completamente diferentes. Não é portanto recomendável a comparação dos resultados dessas duas fontes", afirma.

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